Reflexões sobre a legalização da eutanásia em Portugal

Sou a favor da legalização da eutanásia.

Digo “legalização” e não “despenalização” porque entendo que a prática deve não apenas deixar de ser proibida mas devidamente enquadrada no sistema legal Português e harmonizada com os valores duma sociedade democrática, plural e humanista. Digo “eutanásia” diferenciando-a duma série de práticas que implicam uma pessoa, no consciente e responsável exercício do seu livre-arbítrio, decidir que lhe deve ser proporcionado o fim da vida de forma humana e pacífica quando se encontra incapacitado de o realizar pelos seus próprios meios. Distingo assim práticas que colocam fim à vida dum paciente que assim o solicite (eutanásia) de outras como a cessação de cuidados médicos indispensáveis à manutenção da vida ainda que não haja possibilidade terapêutica (distanásia), a não iniciação de tratamentos médicos que prolonguem a vida (ortotanásia) e o suicídio assistido. Entendo que cada uma destas categorias deve ser considerada nas suas especificidades e um quadro legal e ético distinto aplicado a cada uma delas. Mas por conveniência vou referir-me a toda a situação em que uma pessoa requer colaboração clínica para morrer. Assumo que a questão é duma extrema complexidade e que dificilmente se encontrarão respostas conclusivas à forma como indivíduos e sociedades devem lidar com a eutanásia.

É inútil recapitular aqui os argumentos a favor e contra a legalização da eutanásia. Estão resumidos em várias publicações como por exemplo estas da Associação Portuguesa da Bioética e do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Do primeiro resumem-se os argumentos.

Contra: carácter sagrado da vida humana, integridade da profissão médica, e abuso potencial (slippery-slope);

A favor: respeito pela autodeterminação da pessoa e alívio da dor e do sofrimento (compaixão).

 

Queria apenas aqui explanar as seguintes ideias:

– A morte é uma parte fundamental da vida e “morrer bem” é parte de “viver bem”. Retirar a uma pessoa o direito a escolher uma morte digna é retirar-lhe o direito a ter uma vida digna.

– A vida é mais do que um mero processo biológico. Quando o ser humano dotado de vida é também ele dotado de plena razão e emoção, então o direito inviolável à vida significa o direito a decidir como vivê-la plenamente, incluindo como terminá-la. Nestes casos a eutanásia compagina-se com o direito à vida consagrado na Constituição.

– A compaixão pela unicidade e especificidade do sofrimento de cada individuo exclui moralismos que atribuem à Vida Humana uma dimensão meramente biológica.

– O direito a morrer do paciente implica também o dever de pesar as consequências nos que lhe são próximos e na sociedade em geral.

– A legalização da eutanásia, no quadro legal duma sociedade democrática, liberal, pluralista e humanista, pode redundar numa profunda mobilização da sociedade civil e dos decisores políticos no sentido duma melhoria efectiva dos serviços de cuidados paliativos/continuados que diminuirá o sofrimento de doentes crónicos e terminais e tornará marginal o recurso à eutanásia.

 

1) Eὐθανασία e εὐδαιμονία

Dizia José Gil num artigo recente

Não é em nome da liberdade que se escolhe a eutanásia, é, sim, em nome de “uma vida digna”. A liberdade, o conhecimento de si ou a lucidez – sempre relativos – são meios de aceder à dignidade que uma vida deve merecer.”

O conceito de eutanásia (do grego “boa morte”) parece-me integralmente ligado ao conceito de eudaimonia (do grego “felicidade”, “florescimento”, “vida boa”). Na filosofia Aristotélica (de onde emana muita da tal matriz “judaico-cristã”), a eudaimonia era o supremo objectivo da vida: uma vida virtuosa, plena, equilibrada. Não se trata de viver de acordo com os nossos desejos e impulsos, porque não é aí que se encontra a felicidade, mas sim em viver de forma a realizar o nosso potencial humano. Filosofia à parte, interessa aqui a relação entre “viver bem” e “morrer bem”. A inseparabilidade entre uma vida preenchida e digna, com sentido, e uma morte em consonância.

Como viver bem? Embora se possa tentar definir aspectos que todas as pessoas acharão comuns (ter saúde, amigos, suficiência material, etc) a resposta é obviamente subjectiva. Para muitos uma vida com trabalho honesto e que nos realize é indispensável a uma “vida boa”, para outros nunca ter de trabalhar será um ideal. Idem aspas para a morte. Como morrer bem? Pergunte-se à maior parte das pessoas e encontrar-se-ão aspectos comuns (morte rápida, o mais tarde possível, ausência de dor). Mas para muitos o ideal será uma morte durante o sono, para outros pode ser uma morte heróica numa batalha a defender um ideal.

O processo de morrer (que pode durar segundos ou anos) é parte da vida. O dia em que morremos é mais um dia da nossa vida. Como tal, para viver bem é preciso morrer bem.

Uma vida bem fruída requer, tanto quanto possível, que o mesmo suceda com o processo da morte. Tal como nenhum individuo partilha exactamente a mesma ideia de vida boa, cada individuo reagirá de forma diferente à morte. Doentes terminais terão experiências passadas, circunstâncias presentes, personalidades, contextos que determinarão a sua abordagem ao processo da sua extinção. Por ventura a maioria escolhe não antecipar a morte e enfrentar o processo de doença que de forma inefável levará a ela. Fazem-no porque enocntram apesar de tudo sentido na sua existência. Seja no prazer que retiram da presença de amigos e familiares. Seja porque querem fazer do seu sofrimento um exemplo de coragem e autodeterminação. Seja por instinto básico de apego à vida. Alguns de forma generosa procuram mesmo até descrever as suas experiências com o objectivo de ajudar outras pessoas a lidar com o processo. Olhe-se o exemplo das obras “Mortalidade” de Christopher Hitchens (Dom Quixote, 2013) ou “Antes de Eu Partir” de Paul Kalanithi (Saída de Emergência, 2016). Outros optarão por morrer na altura e forma escolhida por eles, rodeado das pessoas que mais amam.

De qualquer forma, parece-me inegável que obrigar um individuo a viver a fase terminal da sua vida duma ou determinada forma é uma ingerência não apenas na sua liberdade individual e autodeterminação mas, mais grave, na sua inviolável dignidade humana, no seu processo de florescimento. Retirar-lhe a escolha da forma de morrer é retirar-lhe a escolha da forma de viver. É subtrair a essa pessoa, simultaneamente, liberdade e dignidade. Recusar a uma pessoa que o solicite de forma livre, plena, consciente, atempada, explicada e ponderada uma “boa morte”, é tão gravoso como recusar a uma pessoa viver da forma que entende digna. É, por outras palavras, escravizar um indivíduo, rebaixa-lo à posição de mero objecto.

“Vida” e “dignidade” são conceitos difíceis de definir mas entende-se que o primeiro está para lá do mero processo biológico. Se obrigássemos uma pessoa a viver num quarto escuro e exíguo, do nascimento à morte, alimentando-o e cuidando da sua saúde, estaríamos a salvaguardar a sua vida biológica, a preservar o seu direito à vida. No entanto, todos concordaremos, tal existência não seria “digna” e dificilmente classificada de “vida”. Assume-se que por “direito à vida” da pessoa nos referimos a que essa pessoa possa fazer coisas que dão sentido à existência e à sua consciência: criar, amar, sofrer, socializar, rir, chorar, sonhar, errar. Ao contrário do que argumentam os opositores da eutanásia, obrigar uma pessoa a um processo de morte “natural” (por vezes não muito diferente da analogia de manter alguém encerrado indefinidamente num quarto escuro) é retirar-lhe o direito à vida. É dizer-lhe “Tu és um mero objecto nas mãos de Deus ou dum Código de Moral e não tens qualquer direito às coisas que tornam uma vida adequada e rica”. Quando o artigo 24º da Constituição da República Portuguesa diz “A vida humana é inviolável” não se refere apenas à vida enquanto processo metabólico, mas a uma ideia de vida humana enquanto florescimento. A vida não é algo estático e imanente, mas dinâmico e criativo.

Claro que, e daqui resulta a complexidade da questão, a vida é também um processo biológico. Uma visão da vida apenas enquanto fruição dum potencial pode descambar em relativismo cultural e retirar o inviolável valor a indivíduos que, por condições de acidente ou patologias sejam incapazes de tomar decisões ou sentir e experimentar o mundo como a maior parte dos seres humanos. Na ausência de razão, livre-arbítrio ou consciência, a vida dum ser humano enquanto fenómeno biológico torna-se de facto inviolável. Ainda que outras pessoas (ou a sociedade) entendam que essa pessoa sofre, ou que a sua vida não faz sentido nem é digna. Lembremo-nos por exemplo, da indizível horror da Aktion T4 em que o regine Nazi eliminou por eutanásia involuntária (e atente-se à palavra “involuntária”) cerca de 275,000 Alemães, a maior parte crianças, por sofrerem de doenças mentais ou físicas. Nos casos em que a pessoa não tem consciência da sua condição humana ou sofre de patologias que afectam profundamente as suas capacidades mentais ou sensoriais, a sua vida é ainda assim preciosa e inviolável. Mas nos casos em que a pessoa está no perfeito domínio das suas capacidades, uma visão da vida humana enquanto florescimento e dignidade, deve predominar sobre uma visão meramente biológica. Viver só por viver pode ser desumano. Sendo que a morte é parte inseparável da vida, retirar a alguém o direito a decidir a sua morte é retirar-lhe o direito a decidir a sua vida e como tal privá-lo da sua dignidade.

Muitos dos opositores da eutanásia usam argumentos religiosos, mais ou menos semelhantes aos usados na condenação do suicídio. No entanto, até grandes doutores da Igreja apregoavam o martírio. Por exemplo Eusébio (260-340) elogia a morte de Blandina de Lyons, que por recusar-se a abjurar da sua fé foi torturada e morta na arena. A sua morte era facilmente evitável, bastando apenas negar verbalmente – e não em consciência – a sua fé. O PCP, que curiosamente se opõe à legalização da eutanásia por “A oposição do PCP à eutanásia tem o seu alicerce na preservação da vida, na convocação dos avanços técnicos e científicos (incluindo na medicina) para assegurar o aumento da esperança de vida e não para a encurtar, na dignificação da vida em vida.”, tem frequentemente um discurso hagiográfico dos “mártires do PCP” e desvia convenientemente o olhar dos atropelos aos Direitos Humanos em países cujos regimes autoritários entende serem válidos. Claro que podemos argumentar que mártires da fé (religiosa ou política) optaram por sacrificar-se por um bem maior e foram vítimas de causas externas injustas que não escolheram mas que lhe foram infligidas. Em qualquer caso, o mesmo pode ser dito duma paciente que procura o fim digno da sua vida. Também neste caso, ela escolheria continuar a viver não fossem causas externas (acidente ou doença).

No fundo da questão, e independentemente do que achamos da justeza das suas causas, mártires cristãos ou revolucionários, consideravam a vida inaceitável tal como lhes era dado a viver (abjurando a fé ou com injustiças sociais) e consideravam que uma vida digna naquelas circunstâncias incluía uma morte digna. A vida seria insuportável doutra forma. Em ambos os casos, o sacrossanto valor da vida é considerado secundário em relação a uma noção de dignidade, ou dever, ou simplesmente de que uma vida-boa implica uma morte antecipada.

 

2) Compaixão e Sofrimento

Compaixão não significa acabar com o sofrimento. Por vezes, significa dar sentido ao sofrimento. Neste aspecto, os opositores da eutanásia tem alguma razão.

Há um risco da eutanásia ser usado como “escape” ao sofrimento, e como tal é necessário acautelar em qualquer legislação este risco. Tal é minimizado pelas condições que os partidos exigem terem de ser reunidas para que um paciente possa solicitar a eutanásia: situação de grande sofrimento e doença incurável, maiores de 18 anos, pleno uso da consciência e competência, reiterar diversas vezes o pedido, obter pareceres clínicos favoráveis, e não padecer de doença mental. Mas no aspecto do sofrimento há muito a fazer nos cuidados continuados e paliativos. O sofrimento físico e mental faz parte da existência humana e nenhuma vida bem-vivida o exclui.

No entanto, é preciso reconhecer que o sofrimento é subjectivo e dificilmente mensurável. Nem toda a gente sofre da mesma forma, com a mesma intensidade e pelas mesmas causas. Todos reconhecemos que há limiares a partir do qual o sofrimento físico ou psíquico se pode tornar insuportável. Mais: nem todos reagimos ao sofrimento da mesma forma.

Isabel Galriça Neto, médica e deputada do CDS-PP, opositora da despenalização da eutanásia, afirmou num programa televisivo algo que considerei chocante (aos 27 min 20 seg):

“A desistência é uma expressão que eu não gosto por respeito aos doentes, porque eu acho que eles não são desistentes, são lutadores.”

Implícita nesta afirmação, e às opiniões de muitos dos opositores da prática da eutanásia, está uma ideia de que o sofrimento é algo nobre e que quem não é capaz de lidar com ele é fraco e desprezível. É um pensamento que emana do princípio Católico de que Deus, por ser benevolente, não provoca a uma pessoa um sofrimento maior do que aquele que Deus sabe que a pessoa é capaz de suportar. Grosso modo, é a mesma hipótese teológica usada para condenar o suicídio no Cristianismo. Isto é uma forma de pensamento mágico completamente distinto da ideia de que o sofrimento, mesmo o extremo, para algumas pessoas pode dar sentido à vida e ser uma experiência com aspectos positivos. É uma ideia que surge na direita política com frequência, do neoliberalismo à extrema-direita: a ideia de que só os fortes devem ser valorizados e que dos fracos não reza a História.

Nem toda a gente tem a capacidade de fazer do sofrimento uma experiência construtiva nas suas vidas. É perfeitamente possível que um ser humano coerente, racional, digno e auto-consciente entenda que alcançou o ponto a partir do qual a sua dor física ou mental é insuportável, que a vida deixou de fazer sentido. E que neste ponto solicite o suicídio assistido. A diferença entre esta atitude e a dum suicida é a de que, no primeiro caso, a pessoa sabe que está para lá de qualquer esperança que a medicina possa oferecer, que não fora a sua patologia irremediável e a vida valeria a pena ser vivida, que o desejo de morte não é um escape mas uma antecipação em condições controladas do inevitável quando a capacidade de lidar com o sofrimento foi ultrapassada. A pessoa que procura a eutanásia não está a ir gentilmente para essa boa noite escura, está a solicitar auxílio e compaixão. E em nome dessa compaixão o seu pedido deve ser atendido – após firme e rigorosa discussão, avaliação clínica e legal e, acima de tudo, de múltiplas tentativas de dissuasão. Uma vez mais, o sofrimento é subjectivo e tudo deve ser feito para, tanto quanto possível, concluir que o paciente ultrapassou o limite racional e pessoa de angústia. Que a esperança se resume a um milagre sobrenatural, conceito que não deve ditar leis em sociedades humanistas.

As pessoas que solicitam a eutanásia não são “fracas”, são diferentes, tem limites e experiências de sofrimento distintas. Não merecem condenação (seja por censura ou obrigando-as a sofrer em nome dum código moral), merecem compaixão. Uma vez mais, merecem ser reconhecidas na sua dignidade humana.

 

3) Liberdade, Paternalismo e Eutanásia

Eu não sou de forma alguma libertário nem subscrevo o argumento da auto-propriedade. Não acho que em todas as circunstâncias o individuo tenha um direito inalienável a decidir como viver a sua vida. Não aceito a interpretação negativa da Liberdade (freedom from) como única. Por muito que choque o zeitgeist liberal, acho que por vezes o individuo necessita de ser protegido de si mesmo. Haverá aqui uma contradição com a defesa da eutanásia? Se uma pessoa deseja a morte em determinadas circunstâncias, e assumimos que a morte é algo mau e irreversível (“A eutanásia mata” como surpreendentemente nos informa o CDS-PP), não deve o Estado ou a sociedade proteger o indivíduo dessa sua vontade?

Esclareço. Por principio, não tenho nada contra o paternalismo, apenas contra o conteúdo de alguns paternalismos. Frequentemente, o individuo deseja coisas que lhe serão prejudiciais ou que lhe retiram a sua própria liberdade. Tentar impedir a pessoa de realizar a sua vontade é nesse caso uma expressão de amor e de defesa da liberdade. Se eu me tornar toxicodependente ao ponto de degradar todos os aspectos da minha vida, um bom amigo é justificado em retirar-me o estupefaciente e, mesmo contra minha vontade, me obrigar a iniciar um tratamento. A intenção do meu amigo é a melhor, tem o meu interesse em consideração. Se num acesso de luto e sofrimento eu quiser entregar todos os meus bens a um vigarista ou vendedor da banha da cobra, uma boa amiga deve dar-me um estalo na cara e impedir-me de cometer tal loucura. Em ambos os casos, é importante frisar, as minhas escolhas irão 1) limitar profundamente a minha liberdade; 2) são tomadas num estado de profunda alteração de personalidade (toxicodependência e luto). Claro que em ambos os casos é possível contra-argumentar contra o paternalismo, e há um perigo que este argumento retire a inalienável dignidade da pessoa, por exemplo a toxicodependentes ou pessoas transtornadas por um luto. Direitos humanos não dependem do grau de consciência da pessoa.

Mas o que eu gostaria de frisar é que entendo que a intenção benevolente duma amiga, ou mesmo do Estado, nestes casos, embora actuem contra o meu desejo, é justificada pela intenção de me proteger e, de alguma forma, salvaguardar a minha liberdade. É o meu interesse que as move, é o amor que as move, e o amor é louvável. E nada fazem que não possa ser depois revisto (posso sempre retomar o hábito após uma cura ou, mesmo passado o período de luto, decidir investir os meus bens no produto do vigarista).

De igual forma, a sociedade encontra-se legitimada para actuar contra a minha vontade naquelas coisas em que as minhas acções interfiram com outras pessoas. Os truísmos “a minha liberdade acaba onde começa a do outro” ou “ninguém deve interferir com a minha vida desde que eu não interfira com a vida de outra pessoa” são para mim descabidos. Enquanto seres sociais tudo o que fazemos interfere, em maior ou menor escala, com a vida de outras pessoas. Se eu preferir beber um copo de vinho em vez duma cerveja estou a favorecer produtores de vinho e, ainda que de forma mínima, a afectar negativamente as pessoas que dependem da produção e distribuição de cerveja. O eu decidir andar de automóvel, embora não afecte directamente a liberdade de ninguém, contribui para o aquecimento global e pode alterar profundamente o bem-estar e as liberdades fundamentais de populações inteiras. A questão em filosofia política é o grau em que é legítimo interferir com a vida de outra pessoa e em que é legítimo a sociedade interferir com a minha vida.

Claro, nas grandes questões que dão sentido à vida, o indivíduo é soberano. Se eu quiser abandonar a minha mulher maravilhosa porque me apaixonei por uma megera, um amigo não está legitimado a impedir-me de o fazer (porquanto possa admoestar-me). De igual modo, embora ser médico ou fazer um MBA sejam opções profissionais que provavelmente me beneficiarão, nem o Estado nem um amigo tem o direito de me impedir a ter a profissão que eu desejar, tocador de didgeridoo e cuspidor de fogo, por exemplo. Nas grandes questões que dão sentido à vida (amor, profissão, amizade, religião, orientação sexual, filosofia, valores, etc) o individuo deve de facto ser soberano e nenhum outro, sociedade ou Estado devem dizer-lhe o que fazer ou ditar-lhe escolhas.

A morte é dos elementos mais importantes e cruciais da vida e o acto de morrer um dos, senão o mais, crucial momento da vida. Decidir quando, onde e de que forma morrer é tão essencial como decidir quando, onde e de que forma viver. Impedir o individuo de tomar decisões quanto à sua morte tem o mesmo estatuto que impedi-la de decidir de que forma viver,

em que cidade viver, quando se reformar, que profissão exercer, que religião seguir. A eutanásia assegura assim a Liberdade nas suas duas dimensões: a liberdade para decidir como morrer (e, nesse aspecto, como viver), e a liberdade de interferência de outros na nossa vida. Mas ainda assim, as minhas escolhas têm consequências na sociedade.

 

4) Os efeitos da legalização da eutanásia na sociedade

Quais são as consequências nos outros da minha decisão de morrer por suicidio assistido? É essa influência prejudicial ao ponto de ser legítimo retirar-me essa escolha? A minha decisão de morrer por eutanásia, como tudo o que eu faço na vida, não atinge apenas a mim. Outros são afectados: 1) familiares e amigos que por gostarem demasiado de mim não me querem ver partir; 2) médicas e enfermeiras que poderão ter de agir contra a sua consciência a fim de cumprir a minha vontade; 3) posso estar a contribuir para uma diminuição do valor da vida humana na sociedade, com a sua consequente “desumanização”. Todas estas pessoas são afectadas pela minha decisão, não apenas eu enquanto individuo. E esta ingerência na liberdade e bem-estar de outras pessoas deve ser considerada com seriedade. Como lidar com elas?

 

Familia e Amigos

Qualquer formulação legal da eutanásia deve exigir o envolvimento de pessoas próximas da pessoa que a solicite. Um esforço por explicar e solicitar a plena concordância e entendimento de familiares e amigos deve ser feito pela pessoa, e só aí o seu desejo deve ser anuído. É importante que a pessoa entenda que se tem direito à sua autodeterminação ela tem também o dever de assumir as suas responsabilidades para com os outros seres humanos. Este processo pode ser demorado e de forma alguma será fácil mas é o dever que vem associado ao direito da morte assistida, a responsabilidade que vem com a liberdade de escolher a forma de morrer.

 

Profissionais de Saúde

De igual modo, a nenhum profissional de saúde deve ser exigido que administre os procedimentos da eutanásia contra a sua vontade e consciência. Mas, de igual forma, o Juramento de Hipócrates feito por todos os médicos é, como todos os textos, passível de diferentes interpretações. Não pode ser imposta a uma clínica que, em valores conflituosos, tenha de escolher uma interpretação que lhe é imposta e com a qual discorde. Por exemplo, a versão mais recente do Juramento (aprovada em 2017 pela World Medical Association) refere:

A saúde e o bem-estar do meu doente serão as minhas primeiras preocupações;” – como deve a profissional de saúde actuar quando a saúde é impossível (doença terminal irreversível, por exemplo) e o paciente entende que o seu bem-estar, ao contrário da saúde que se tornou impossível, só pode ser encontrado na morte?

Respeitarei a autonomia e a dignidade do meu doente;” – o que fazer quando no exercício da sua autonomia do doente exige o fim da vida?

E, obviamente, quando se coloca a questão de “qual é a acção correcta?”, diferentes abordagens em ética normativa focam-se em diferentes aspectos: podemos olhar para as consequências da acção (consequencialismo), a acção em si (deontologia) ou a intenção do agente (ética da virtude). Do ponto de vista das consequências, podemos assumir que a deixar uma pessoa morrer que assim tenha expresso a sua vontade é diminuir o sofrimento ou aumentar a felicidade, logo a acção será certa (mas ver a próxima secção). Do ponto de vista deontológico, a vida é um valor absoluto que não pode jamais ser violado. Mas se a abordagem legal seguir este absolutismo deontológico, então, reductio ad absurdum, será preciso abolir a instituição militar e quiçá policial ou até mesmo os bombeiros, dado que nestas profissões há um risco muito real de se perderem vidas. Logo, parece que há alturas em que o valor da vida e do direito à vida se compagina com a opção por parte do individuo de abdicar dela. Um soldado escolhe dar a vida pela pátria se necessário, um bombeiro escolhe sacrificar-se para salvar pessoas do fogo. Se o direito à vida permite que em certas situações um indivíduo escolha morrer, tal pode portanto adequar-se também no contexto clínico. Finalmente, como frequentemente mencionado na discussão do tema, uma médica que administre uma dose letal para aliviar o sofrimento duma paciente fá-lo com essa louvável intenção: aliviar o sofrimento. O objectivo não é terminar a vida. Esta diferença de intenções é fulcral, mesmo perante o Juramento de Hipócrates.

De qualquer modo, as propostas apresentadas pelo BE (artigo 17º), PAN (artigo 31º), PS (artigo 20º) e Verdes (artigo 12º) todas contemplam a possibilidade de objecção de consciência por parte de médicos e enfermeiros.

 

Diminuição do valor da vida humana

Pode argumentar-se que a legalização da eutanásia levará a uma banalização da morte e a uma diminuição do valor da vida humana. Que ao mais pequeno sofrimento as pessoas optarão pela bênção da sobredose de pentobarbital. Que a visão hedonista de que sem plena fruição das nossas capacidades motoras e mentais a vida não faz sentido e mais vale terminá-la, tornado-se o prazer (ou o medo da dor) mais valorizado do que a vida em si. Que uma vida sem saúde não faz sentido.

Não creio que isto seja um risco. Para começar, numa quadro legal humanista, a eutanásia terá de ser decidida por concordância de paciente, painel de clínicos e entes queridos do paciente. O processo será demorado, reflectido, e poderá sempre ser parado a qualquer momento por decisão duma das três partes envolvidas (um clínico pode descobrir um tratamento inovador e recente que ofereça esperança ao paciente; o paciente pode mudar de ideias; os familiares podem decidir que viver sem o seu ente querido não é suportável).

Uma vez mais, a eutanásia não é um elogio da morte, é um elogio da vida, um apelo a viver bem a vida. Nisto é completamente diferente do suicídio, frequentemente uma consequência dum quadro clínico depressivo. Quase sem excepção, as pessoas que solicitam a eutanásia amam a vida e gostam de viver e não teriam nenhum desejo de a deixar, não fosse o acidente duma patologia que não escolheram e da qual não há escapatória possível e que lhes retira toda e qualquer possibilidade de “viver bem”, de retirar sentido da vida e as colocam num estado de insuportável e irremediável sofrimento. Frequentemente entendem que a sua vida foi vivida plenamente e usufruíram de tudo o que esta tem para oferecer, de bom e mau. A sua vida teve significado. E como tal querem que a sua fase final esteja em concordância. Frequentemente, trata-se de aumentar a dignidade da vida, não de diminui-la ou considerá-la desprezável.

Sem dúvida que haverá pormenores legais que terão de ser considerados. Mas, no cômputo geral, de forma alguma a eutanásia é um elogio da morte (como, por exemplo, são a pena de morte, o homicídio ou a glorificação da violência, de guerras ou ideologias extremistas).

Ainda que a consequência (morte) a o acto em si (pôr fim a uma vida) sejam comuns à eutanásia e ao homicídio, o propósito radicalmente diferente e a concordância do sujeito sobre quem a acção recai fazem toda a diferença entre os dois. Um é um crime inaceitável, o outro um acto racional e de compaixão.

 

5) Legalização da eutanásia como a forma mais segura e rápida de melhorar e reforçar os cuidados de saúde paliativos ou continuados

Poucos livros em Portugal abordaram a morte e a vida em fase terminal, especialmente fora dos centros urbanos, como “Agora e na Hora da Nossa Morte” de Susana Moreira Marques (Tinta da China, 2012). Aqui, a autora e o fotógrafo André Cepeda, acompanham uma rede de cuidados paliativos ao domicílio a funcionar em Trás-os-Montes. Os pensamentos, receios, esperanças, formas de lidar com a situação extrema, são aqui relatados de forma clara e marcante.

Num estudo entre 2003 e 2012 revela-se que 70% das mortes ocorridas em Portugal se deviam a patologias que requeriam cuidados paliativos, com uma tendência crescente para a morte ocorrer no hospital e não em casa. A figura 4 deste relatório mostra o quão Portugal está atrasado na provisão de cuidados paliativos e continuados. Note-se que este nem é um valor absoluto de financiamento, mas uma proporção do PIB. De igual modo, a figura 2 mostra também o longo caminho a percorrer ainda na formação de recursos humanos neste campo.

São legião as figuras da direita Portuguesa que se insurgem contra a eutanásia apelando à alternativa o investimento nos cuidados paliativos ou continuados (ninguém, mas absolutamente ninguém que defende a legalização da eutanásia entende a prática como “alternativa” aos cuidados de saúde, essa concepção existe apenas nos opositores). No entanto, estas personagens que agora sugerem um investimento do Estado no apoio aos doentes terminais ou crónicos são os mesmos que perfilham a ideologia de que não é papel do Estado prover bens ou serviços aos cidadãos. Os mesmos que agora propõem o reforço das redes de cuidados são os mesmos que advogam que todos os bens e serviços devem estar sujeitos às leis de mercado, da oferta e procura como determinantes do preço. Há uma certa hipocrisia por parte dos partidos de direita que não hesitam em aplicar e promover fórmulas de “custo-benefício” na área da saúde que comumente resultam no abandono ou menosprezo de doentes terminais ou cuidados paliativos/continuados, especialmente fora dos grandes centros urbanos. Curiosamente, são estes mesmos partidos que propõem um reforço nos cuidados de saúde e continuados em vez da legalização da eutanásia. A excepção é a ala neoliberal do PSD, que não se opõe à legalização da prática, mas cujos motivos são algo suspeitos, dado que para muitos dos seus elementos a vida humana tem um preço que pode ser calculado por fórmulas econométricas que variam de país para país e que apenas às mãos invisíveis do mercado compete decidir se vale a pena ou não pagar.

Mas para uma boa parte da direita política, a proibição pura e simples é um expediente mais simples e barato para evitar a eutanásia do que financiar a universalidade e a qualidade dos cuidados de saúde paliativos/continuados.

Obviamente, a legalização da eutanásia não implica o desinvestimento nos cuidados de saúde e apoio aos doentes terminais. Tal como a despenalização do aborto não implicou o fim do financiamento de métodos anti-conceptivos ou de campanhas de educação sexual. Na verdade, creio que a melhor forma de reforçar e melhorar os cuidados paliativos/continuados é precisamente legalizar a eutanásia. Neste quadro, isso criará incentivos a um esforço real por parte dos segmentos da sociedade civil que tem uma abordagem deontológica do valor da vida e querem impedir a prática da eutanásia em envolverem-se na vida dos pacientes e das suas famílias e no seu apoio. Também levará a que os partidos de direita, por norma os que mais se opõe à legalização da eutanásia, deixem de ser os que por norma também mais desinvestem no SNS em geral, no apoio social aos pacientes e nos cuidados continuados. A Igreja – e outras religiões – terão também de se ser bastante mais dinâmicas em fazer valer os seus argumentos juntos aos pacientes em condições clinicas problemáticas e à população em geral. Os serviços pastorais terão de ser assim bastante mais eficazes. Terão de colocar a carteira onde a boca está e começar a financiar uma rede de cuidados de qualidade, em colaboração com o sistema público ou privado de saúde, acessível a toda a gente que a solicite em qualquer região do país. Se a eutanásia continuar a ser proibida, as vozes que agora bradam aos altos céus pelo “Não mates, cuida!” ficarão silenciadas no dia a seguir à discussão no parlamento. Os que podem que o “Espírito Santo ilumine os deputados” deixarão de rezar pelos doentes terminais, ou farão apenas isso: rezar. Os políticos que agora clamam investimento em serviços de cuidados paliativos/continuados serão os mesmos que aplicarão fórmulas de custo-benefício que não resultarão seguramente em benefício para as pessoas mais pobres e suas famílias nem chegarão provavelmente ao interior ou os que dirão que há outras prioridades para o país. Em resumo, nada absolutamente mudará.

 

6) Conclusão

– A morte é uma parte fundamental da vida e “morrer bem” é parte de “viver bem”. Retirar a uma pessoa o direito a escolher uma morte digna é retirar-lhe o direito a ter uma vida digna.

– A vida é mais do que um mero processo biológico. Quando o ser humano dotado de vida é também ele dotado de plena razão e emoção, então o direito inviolável à vida significa o direito a decidir como vivê-la plenamente, a determinar o ponto a partir do qual o sofrimento deixa de lhe acrescentar significado e se torna insuportável, e como terminá-la. Nestes casos a eutanásia compagina-se com o direito à vida consagrado na Constituição.

– A compaixão pela unicidade e especificidade do sofrimento de cada individuo exclui moralismos que atribuem à Vida Humana uma dimensão meramente biológica.

– O direito a morrer do paciente implica também o dever de pesar as consequências nos que lhe são próximos e na sociedade em geral.

– A legalização da eutanásia, no quadro legal duma sociedade democrática, liberal, pluralista e humanista, e elaborada com as devidas cautelas, pesos e contrapesos, e se elaborada com consulta de especialistas em bioética, associações de pacientes e profissionais clínicos, pode redundar numa profunda mobilização da sociedade civil e dos decisores políticos que resultará numa transformação positiva e real dos serviços de cuidados paliativos/continuados que diminuirá o sofrimento de doentes crónicos e terminais e tornará marginal o recurso à eutanásia.

Word I stumbled upon today.

Synderesis

noun  syn·de·re·sis \ˌsindəˈrēsə̇s\

1:  inborn knowledge of the primary principles of moral action —distinguished from syneidesis.

2:  the essence, ground, or centre of the soul that enters into communion with God :  the spark or emanation of divinity in the soul.

(from the Merriam-Webster Dictionary)

 

“Synderesis” is a technical term from scholastic philosophy, signifying the innate principle in the moral consciousness of every person which directs the agent to good and restrains him from evil. (…) Both synderesis and conscientia are placed among the intellectual powers. A different view is given by Bonaventura, who makes the whole distinction between conscientia and synderesis rest upon the distinction between judgment and will. God (he says) has implanted a double rule of right in human nature: one for judging rightly, and this is the moral strength of conscience; another for right volition, and this is the moral strength of synderesis, whose function is to dissuade from evil and stimulate to good, and which may therefore be described as the original moral tendency of the disposition.

(from the Internet Encyclopaedia of Philosophy)

 

The term synderesis (συντήρησις) refers to the natural or innate habit of the mind to know the first principles of the practical or moral order without recourse to a process of discursive reasoning. The notion was developed by Aristotle, who insisted that there must be a starting point for man’s thought, and that the first truths that would serve as such could not be acquired, like other subsequent truths, discursively or demonstratively. Unwilling to accept skepticism or Plato’s theory of innate ideas, Aristotle taught that the mind must have the potentiality to acquire fundamental truths with certitude and infallibility without having to reason to them. Though man does not possess such truths innately, he does possess an innate or natural habit for acquiring them as self-evident propositions, once he understands the terms involved.

“Synderesis.” New Catholic Encyclopedia. . Encyclopedia.com. 2 Sep. 2017 (www.encyclopedia.com)

 

Synderesis means the repeated use of ‘right’ reason, by which a person acquires knowledge of basic moral principles and understands that it is important to do good and avoid evil. Conscientia is the actual ethical judgement a person makes which leads to a particular course of action based upon these principles. This is the practical application of conscience. For Aquinas, conscience is therefore is being able to both distinguish right from wrong and use make practical moral decisions when a person is confronted with difficult moral situations.

(original article here)

 

I found this word mentioned in this interview with the writer Salman Rushdie, where he discusses Trump, free speech and his new novel. This got me thinking how this term relates to intuitionism and to the broad idea that there are self-evident moral principles that can be apprehended.

War and drugs.

Recently, researchers at the Scripps Research Institute (California) have discovered a way to mitigate the effects of fenethylline (Captagon®), an amphetamine-type of stimulant frequently consumed in the Near East. This is sometimes referred to as the “jihadist drug”. Apparently, it is clandestinely produced and sold by terrorist groups, and the revenues of this little cartel are used to fund ISIS terrorist activities. Moreover, it is used as a stimulant by fighters. The drug induces aggression, emotional detachment and alertness, all of which are useful in combat situations.

There are even suggestions that the perpetrators of the Bataclan terrorist attack were under the effect of this drug. A “zombie like” appearance of the killers was described by eye-witnesses and there are rumours of syringes found in hotel rooms by the police and assumed to have been used by the gang prior to the attacks. Seifeddine Rezgui, The terrorist who gunned 38 people at a beach in Tunisia in 2015, took fenethylline before carrying out his shootings. Supposedly, the Islamic Law ban on intoxication includes alcohol but does not extend to drugs.

The use of psychoactive drugs or alcohol to enhance military performance or reduce combat anxiety is as old as humanity.

In his 2016 book, Luckasz Kamienski describes the use of coca and mushrooms in pre-modern warfare as well as the consumption of hashish by Napoleon’s soldiers during the invasion of Egypt, opium use during the American Civil War and the administration of narcotics to control child soldiers in present-day Africa. Another recent book by Norman Ohler has revisited the extensive use of medically prescribed amphetamines by Nazi soldiers to improve stamina and overcome the fatigue of the fast and sleepless Blitzkrieg. Supposedly, Red Bull was yet to be invented. There are strong suggestions that Hitler himself was hooked on these substances. Also, the Allies had no higher moral ground on the chemical-addiction aspect.

As the War on Terror intertwines with the War on Drugs, and Narcos meets Homeland, remember kids, “drugs are bad, you shouldn’t do drugs, ok? If you do them you’re bad, ok?”. You might end up a terrorist, a Nazi, or, even worse, a trance-music rave attending hipster. Come antes uma peça de fruta que te faz melhor, rapaz.

south-park-s08e03c10-timmy-goes-to-mackey-16x9

Fond G, Oliver H (2016) Pharmacoterrorism: the potential role of psychoactive drugs in the Paris and Tunisian attacks. Psychopharmacology 233: 933-935.

Kamienski L (2016) Shooting Up: A Short History of Drugs and War. Oxford University Press.

Ohler N (2016) Blitzed: Drugs in Nazi Germany. Allen Lane.

Van Hout MC, Wells J (2016) Is Captagon (fenethylline) helping to fuel the Syrian conflict? Addiction 111: 748-749.

Wenthur CJ, Zhou B, Janda KD (2017) Vaccine-driven pharmacodynamic dissection and mitigation of fenethylline psychoactivity. Nature 548:476–479.

The bird’s-eye view of the events in Charlottesville.

Something horrifying happened in Charlottesville, Virginia, US, yesterday. A demonstration of white supremacists, neo-Nazis and alt-right (excuse the pleonasm) clashed with a counter-demonstration of anti-fascist activists. In the aftermath, a neo-Nazi decided to use the strategy of ISIS terrorists and run people with his car, fatally wounding 32-year old paralegal Heather Heyer. What to think of this?

Let me be abundantly clear: these people are evil. When politics and opinions in general are the topic there are all sorts of shades of grey, but not on this particular case. This is as dark as it comes. These far-right people are absolutely, utterly, inexcusably wrong. They are on the same level as ISIS militants. We sure can try to understand where their pathological degradation of humanity stems from, its psychological, economical or sociological causes. We must by all means remember that Human Rights apply to them as well (if it’s ethical or not to punch them is debated here, here and in a vaguely Kantian fashion here as well).

nazis-i-hate-these-guys1

 

What this rally was.

This was a rally of people sharing extremist, fringe views. Whatever euphemism they chose to call themselves, the message, symbols used (shields with “fascies”, swastikas, the colours red-black-white, the salutes, the marches under torch-light, slogans of “blood and soil”, etc), methods and the groups targeted by their hate (Jews, black people, ethnic minorities, homosexuals, left-wing people) are the same as classical Nazi or fascist groups. The prefix “neo” here is not even warranted. Should these positions be allowed in a democracy? Should freedom of thought and speech be given priority over the necessary containment of extremist ideologies which endanger democracy and advocate physical violence? These are tough questions that have been and will – hopefully – continue to be debated in years to come.

soundofmusic
Christopher Plummer as Captain von Trapp. The Sound of Music (1965).
screen-shot-2016-12-12-at-5-23-20-pm
Danuta Danielsson hits a neo-Nazi in Växjö, Sweden. Hans Runesson (1985).

 

What this rally was not.

Was this rally new or extraordinary? No. These marches unfortunately happen frequently in the US. As recently as July, Charlottesville was the stage of a demonstration by 50 KKK members, also attended by 1,000 counter-protesters who surrounded the white supremacists. This weekend’s rally was a national event, and the number of people who attended it is somewhere between 100 and 1,000. According to estimations, KKK and far-right party membership in the US sums to no more than 20,000. This represents 0.006% of the US population! To be sure, this is 20,000 people too many, but it hardly constitutes a menacing mass movement.

More worrisome is the soft extremism of the “loud minority” of internet trolls, more or less affiliated to Libertarian/Tea-Party/Republican groups. Also the vast number of people who – if not attracted outright by these extremist ideology – adhere to the fashionable soundbites of the “dictatorship of political correctness”, “saying it as it is”, “I don’t agree with these people, BUT…” and are willing to excuse or minimise this type of fanaticism. These are the moles that feed populism. I risk saying that, bad enough as populists are in themselves, it’s a different league altogether.

Populism holds many dangers to liberal democracy. It sure reinforces extremist positions and, in its right-wing manifestation, emboldens racists, nationalists, male-chauvinists and far-right groups. But it is a different and more recent phenomenon, with distinct origins and solutions.

 

 

What causes it?

The rise of the far-right in Europe and its growing boldness in the US is fed by the ascendancy of right-wing populism in general, and by Trump in particular. But it is not caused by it.

Nor is it caused by globalisation, emigration, women empowerment, economic crisis, or any of the social changes of the recent years. It is, unfortunately, a social pathology that persisted since WWII. It acquired different local causes and historical particularities, like nostalgia for the Confederation in the US. Its speech has changed to fit the times and the grievances of today’s putative supporters and a varnish of respectability is applied (consider Marine Le Pen and the tones of make-up she puts on what is effectively a fascist anti-democratic party). The social and individual origins of far-right extremism were superbly diagnosed by Erich Fromm in his 1941 book “The Fear of Freedom”, by Hannah Arendt in her “The Origins of Totalitarianism” (the sales of which soared after Trump’s election) and more recently by the Dutch philosopher Rob Riemen “The Eternal Return of Fascism”. It is debatable if today’s socio-economic conditions could cause populism to turn into an outright authoritarianism with racist and violent undertones. If the cases of Hungary, Poland and Turkey are alarming, one must acknowledge that today’s citizens are far more literate and aware than they were in the past. We hope that, in the end of the day, that fact will save us all.

 

indyjones
Harrison Ford as Indiana Jones. The Raiders of the Lost Ark (1981).
spencerpunched
White-supremacist Richard Spencer gets punched after Trump’s inauguration. January 2017.

 

What to do about it?

Fascism asserts authoritarianism but organises rebellion (…) whichever way we approach fascism we find that it is simultaneously one thing and its contrary, it is A and not-A” wrote Spanish philosopher José Ortega y Gasset in 1927. It continues to be true. The Charlottesville demonstrators advocate the harshest authoritarianism yet talk about the importance of free speech, they call themselves patriots yet adopt the ideology and symbols of an enemy defeated by the US at the cost of hundreds of thousands of American lives. Fascism is notorious among political ideologies for being illogical, irrational and not caring about any of it. So, constructive dialogue with these people is futile, as anyone who ever spent five minutes trying to discuss with a far-right sympathiser knows perfectly well.

Does the media give exaggerated coverage to these guys (after all, they were less than 1,000 of them) just because it stirs our fears and raises audiences? Maybe. Should they just be allowed to demonstrate and be summarily ignored, like spoiled unruly children? Here I disagree. They must be always confronted by huge, non-violent, counter-demonstrations. They must feel at all times that they are nothing but 0.006% of the population. That despite their delusions of grandeur they are outnumbered, outwitted and – at least in the US – outgunned. Is non-violence complacency? Not at all, but it is the duty of every democrat and freedom loving person to go out and peacefully confront these monsters.

The Republican Party, of course, has the biggest responsibility. Trump all but excused them, blaming “many sides” for the violence. The president is after all advised by an “alt-right” figure-head himself. In 1930s Germany, a man promised to “Make Germany Great Again” in the middle of an economic, political and social crisis. He ruled a minor party. The centre-right and the conservative-right, fearing communism and democratic socialism, handed him the power, calculating that the practice of government would domesticate him and his thugs. They thought they could easily control him. This went down as one of the most spectacular errors in History. Today’s circumstances are different, obviously, but this lesson should be in the minds of moderate, old-school conservative Republicans. Some rightfully urged Trump to grow some balls. Senator Orrin Hatch tweeted “We should call evil by its name. My brother didn’t give his life fighting Hitler for Nazi ideas to go unchallenged here at home”. Sen. Cory Gardner, tweeted “Mr President – we must call evil by its name. These were white supremacists and this was domestic terrorism.”. Marco Rubio, wrote: “Nothing patriotic about Nazis, the KKK or White Supremacists. It’s the direct opposite of what America seeks to be.”

Virginia Governor Terry McAuliffe said everything that Trump should have said to the nation and especially to the terrorists who rallied in Charlottesville, with moral clarity and the simplicity of truth. This is the type of message that is needed: “we are stronger than you. You will not succeed. There is no place for you here and there is no place for you in America”. (between 1:00 and 3:00 in this video)

Spurious historical comparisons must be avoided, though. History is chaotic and, contrary to popular and Steve Bannon’s belief, it does not repeat itself. We should absolutely demonstrate moral outrage at these events, though. Remain watchful and unequivocally condemn these demonstrations. And, seriously, people, don’t punch Nazis. They suffer enough from their micropenis medical condition.

Purple blaze

The first time I saw rosebay willowherb [Chamaenerion angustifolium (L.) Scop.] was in Trondheim, in a river bank by the Nidelva, coming down from Kristiansten Festning. It was a gloriously sunny day of mid-August in 2011, although the light already had a somewhat autumn quality to it, and the chill was perceptible. The bright purple of its flowers and the uncanny shape of the inflorescence made it stand out above all other vegetation. It was also spread throughout an extension of the shore, creating a gorgeous blanket of a colour quite like no other. At the time I thought it was a native plant of Scandinavia. I surely had never seen any like that in my home country. I’m far from being an experienced botanist but I would have noticed such a striking species. I dully photographed and later identified it.

 

This slideshow requires JavaScript.

 

It is actually quite rare in Portugal[1][2], but native throughout the temperate Northern Hemisphere. I have since found it every year in August, both in Sweden and the UK. When taking a train during this time of the year, the sides of the track occasionally erupt in a purple explosion, extending through meadows and track sides. It is abundant in calcareous soils with fields or pastures, and burned lands, granting it the name of fireweed in the Americas. Richard Mabey’s in his magisterial Flora Britannica[3] suggests the rapid spread of this species was associated with the expansion of the rail network. Check!

Interesting facts: it also grew rapidly in bomb craters, during WWII; in Finland it was added to cattle feed in the belief it increased milk production (maybe it did!); it was used in Russia as tea before the introduction of Camellia sinensis; and apparently, the root of rosebay willowherb can also be grounded and employed as substitute for coffee (volunteers anyone?).

 

For me the willowherb means the end of summer, which for those who live in the Northern latitudes occurs in mid-late August. I remember in Trondheim, when I first saw it, university students were fully immersed in their beginning of the school year less-than-sober frolics. In Sweden, university lectures started as the purple flowers were legion in the rail track edges, a mellow golden glow already penetrating the windows and the last despaired kräftskivor still sounding in the afternoons. In England… well, in England it’s just grey in August, but it’s definitively an Autumn shade of grey.

 

And so it is, every time I see those gorgeous purple flowers: the last scream of gaiety and summer joyfulness.

 

And so it is, every time I see those gorgeous purple flowers: the last scream of gaiety and summer joyfulness. Yet another summer passed by. A dire reminder that youth passes quickly and bliss cannot last forever. Time to return to work or to school. ‘Tis the season to slow down, to harvest, to store, to prepare. Winter is coming and all that jazz. Air those jumpers out of the wardrobe. Play this song in a loop.

Luckily, Autumn is my favourite season and before winter comes it’s grape harvesting/wine making season in the southerly parts.

 

[1] http://plantas-e-pessoas.blogspot.co.uk/2010/09/epilobium-angistifolium-e-e-hirsutum.html

[2] http://flora-on.pt/#/1epilobium+angustifolium

[3] Mabey R (1996) Flora Britannica. Chatto & Windus / Sinclair Stevenson.

Finding meaning.

The transitory of things can make life seem absurd or purposeless. Let’s face it: civilisation rise and fall, we grow and go old and die, ideas come in and go out of fashion (hopefully, the 1980’s hairstyles won’t come back, though), blogs are started and then slowly abandoned.

If things are in flux and ever changeable what hope is there of finding permanent happiness or at least serenity? Our desires and pains seemingly count for nothing. Some philosophical schools and recent discoveries in neuroscience suggest that there isn’t even a “self” to be happy or not, or free-will to choose how to live. If we have the courage to assume these possibilities, how can we find meaning? Are we condemned to existential angst, nihilistic despair, to indifferent pleasure-seeking? Camus suggested accepting the lack of hope in universals and objectivity. The Greek writer Nikos Kazantzakis wrote “I hope for nothing. I fear nothing. I am free[1], was he right? Stoics propose acceptance of our fate decided by the gods as the key to happiness; epicureans propose enjoying one’s life in the meantime between the two nothings before birth and after death; Buddhism accepts that there is no self to fuss about and identity is but a mere trick of the mind; Religions of different types find meaning in their deities and in promises of fulfilment in some form of after-life.

 

If things are in flux and ever changeable what hope is there of finding permanent happiness or at least serenity?

 

I am of the opinion that there is a profound meaning of life. In seeing things through the eyes of a child and marvel at the universe, to experience fulfilment in the beauty that surrounds us: there is faith in aesthetics. In questioning, reasoning, searching for answers on how things work and how things are, even if there is the possibility that there are no answers or that we can never ultimately be sure of the ones we find. To use our living time to understand ourselves and the world around us is an entertainment at worse, and a salvation from absurdity at best. We have conscience, and as such to use the ability to think and pursue knowledge is to give life a powerful meaning: there is hope in science. And since we have to live with other people and other sentient beings, why not engage with them, care for them, and accept them as fellow travellers who make the journey a pleasurable one? Discovering how to live well and how to get along with other creatures is not easy but it is immensely entertaining and saves us from maddening loneliness. It provides a focus and gives existence a sense of freedom (be it real or imagined): there is love in ethics.

In the apocryphal Gospel of Thomas (42) it is written “Jesus said: be passers-by[2]. Well then, while passing through this life how better to occupy oneself and live fully than to seek knowledge, to admire beauty, to quietly – and perhaps not too hard – try to make this world a bit better? On the words of Bertrand Russell “Three passions, simple but overwhelmingly strong, have governed my life: the longing for love, the search for knowledge, and unbearable pity for the suffering of mankind.”[3] .

russell
Doxiadis A, Papadimitriou CH, Papadatos A, Di Donna A (2008) Logicomix: An Epic Search for Truth. Bloomsbury.

[1] Kazantzakis N (1923) The Saviours of God. Transl. by Kimon Friar ( http://www.angel.net/~nic/askitiki.html )

[2] Gospel of Thomas. Nag Hamadi Library. Transl. Stephen Patterson and Marvin Meyer ( http://www.earlychristianwritings.com/text/thomas-scholars.html )

[3] The Prologue to Bertrand Russell’s Autobiography ( https://users.drew.edu/jlenz/br-prolog.html )

Statement of purpose

What is wisdom? How to live?

What is wisdom? Is a life lived with wisdom a life well lived, a happy life, a meaningful life?

The Stanford Encyclopedia of Philosophy defines Wisdom, in the Western tradition, in five dimensions: (1) wisdom as epistemic humility, (2) wisdom as epistemic accuracy, (3) wisdom as knowledge, (4) a hybrid theory of wisdom, and (5) wisdom as rationality. The Cambridge English Dictionary (online) defines it as “the ability to use your knowledge and experience to make good decisions and judgements”. Philosophers, psychologists, religious figures, common people,  all have proposed different ideas of wisdom and how to live wisely.  Most assume a degree of knowledge of the natural and social world, associated with sound judgement of a situation, kindness of heart and tolerance towards error.

Ilya_Repin_-_Leo_Tolstoy_Barefoot_-_Google_Art_Project
Leo Tolstoy by Ilya Repin (1901)

This blog is meant to be a diary of ideas, interesting snippets of information on issues that interest me, thought-provoking articles, opinions, citations, short stories, things that make me laugh, cry or think

 

This blog is meant to be a diary of ideas, interesting snippets of information on issues that interest me, thought-provoking articles, opinions, citations, short stories, things that make me laugh, cry or think, little clues in the quest for wisdom and the good-life.  I have changed opinion on many things throughout this short life, but some topics have consistently aroused my curiosity and stimulated me to have opinions about, even as a child: books, archaeology, history, story-telling, biology, environmentalism, politics, ethics, religion, oceans, music, owls, football, art, astronomy, aviation, myths.

The posts in this blog are notes to my future self, observations on what surrounds me. It is meant simply as a way to sit and write stuff down, organise thoughts, have an electronic footprint outside the brouhaha of Facebook. If someone else finds them interesting: so much the better.

Design a site like this with WordPress.com
Get started